

Era mais uma daquelas manhãs quentes de verão e estava pronta para o tão esperado príncipe encantado que viesse e aspirasse meu perfume e me caregasse nua em seu cavalo, mas o que restava era só um lago de águas cristalinas onde os sapos aguardavam pacientes uma moçã tão esbelta e de lábios doces e macios que resolvessem beijá-los e transformá-los em príncipes. O dia está quente, começo a sentir-me cansada de ficar sozinha no meu quarto examinando com minúncia pela janela as crianças correndo e dando suas gargalhadas altas acordando toda a vizinhança, os casais melados se amamando, os pássaros cantarolando junto com a música instrumental e aqui estou eu sozinha sob um multicolorido dossel de folhagens esperando o homem pelo qual já não tinha mais lágrimas para chorar por que todo o meu estoque havia empapados os travesseiros enquanto minha mãe estava assistindo às novelas, aquele pelo qual deixava meus cabelos soltos apontando para os meus seios maduros, eretos e pedintes do carinho da sua mão masculina. Espero que daqui há alguns dias, semanas, meses você me ligue querendo me levar para dar uma volta no seu cabelo branco, para tomar aquele chocolate de sempre que deixa um gostinho que derrete mansamente na minha boca ou querendo me amar enquanto você tem o controle sobre mim. Ando nefilibata, os monstros que costumam ficar inquietos estão num terrível silêncio, nenhum barulho, a cidade não respira, os blusões coloridos estão todos empilhados tornando-se nada, as dimensões do quarto perdiam-se nos cantos escurecidos pela iluminação precária, cheia de clarões piscantes destinados a excitar os espíritos. Corpos sacumdiam-se ao ritmo de um som frenético, meios misturados numa massa multior que forma um bloco único, anônimo, como a representação de um inferno alegre, alucinante. Mas a mente permanece lúcida. Encerrada dentro de si mesma pelos olhos que nada mais percebiam o exterior, navegando docentemente através das palavras maravilhosas que nunca ouviu e ouvirás saindo dos seus lábios. — Bruno Grey, BG.

